A voz do morro sou eu mesmo sim senhor

SAMBISTA, COMPOSITOR, CANTOR, ATOR, AGITADOR CULTURAL, MILITANTE, EMPRESÁRIO. Eternizado Zé Kéti - de ‘Zé Quieto’ ou ‘Zé Quietinho’ pela timidez dos tempos de garoto - José Flores de Jesus (1921-1999) foi e fez de tudo. E de quietinho mesmo não teve nada.

Talvez nas reuniões musicais promovidas ainda na infância na casa do avô, o flautista e pianista João Dionísio Santana, das quais participavam Pixinguinha, Donga, Índio das Neves, entre outros, o pequeno José ainda fizesse jus ao apelido. Mas, provavelmente, muito antes de começar a atuar na ala dos compositores da escola de samba Portela na década de 1940, o bico de poeta já estava soltinho soltinho para cantar o samba, as favelas, a malandragem e seus amores.

Muito embora, não tenha sido na sua voz que o samba ‘A voz do Morro’ estouraria em 1955 na trilha do filme ‘Rio 40 graus’, de Nelson Pereira dos Santos. Considerada a obra inspiradora do Cinema Novo, a produção inaugurava o movimento estético e cultural que surgia como resposta as superproduções e a alienação das chanchadas e a promessa de mostrar a realidade brasileira com ‘uma câmera na mão e uma ideia na cabeça’.

A gravação de Jorge Goulart para o filme fez enorme sucesso e deslanchou a carreira do compositor que ainda tirou onda de 2º assistente de câmera e conquistou uma pontinha como ator. Além de emplacar também mais um grande samba (‘Leviana’), o filme marcava o início de uma profunda ligação entre o sambista e os intelectuais que repensavam a nova produção cultual brasileira, interessada em mostrar a cultura do povo para o povo.

Zé Keti dá um rolêzinho pelo morro e acaba batendo um samba com moradores em vídeo raro.

FOI POR ENTUSIASMO E DEVIDO A SUA DESENVOLTURA PARA CIRCULAR POR AÍ, que Zé Keti aceitou um papel que lhe cabia como uma luva: agitador cultural e produtor artístico do lendário restaurante Zicartola (1963-1965) com Cartola ao violão e sua esposa, Dona Zica, na cozinha.

Além de divulgar a casa em rádios e jornais, o cantor promovia noitadas de samba às quartas e sextas-feiras. Foi por meio delas, que nomes ainda desconhecidos do público como o próprio Cartola, Nelson Cavaquinho, Élton Medeiros e Paulinho da Viola (apelido dado por ele e o jornalista Sérgio Cabral) puderam alçar seus primeiros voos.

Com o início do regime militar no Brasil, em 1964, o sobrado da Rua da Carioca, 53, foi também local de encontro entre pessoas contrárias ao golpe. Havia ainda a defesa cultural da música brasileira, que, segundo os que lá se reuniam, estava ameaçada pela canção estrangeira, em especial a americana.

Um dos legados do Zicartola, fechado 20 meses após sua abertura, foi o conjunto ‘A Voz do Morro’, que Zé Keti idealizou em 1965 ao lado de Élton Medeiros, Paulinho da Viola, Anescarzinho do Salgueiro, Jair do Cavaquinho, José da Cruz, Oscar Bigode e Nelson Sargento. Uma das primeiras oportunidades que esses sambistas tiveram para gravar suas próprias composições sem intermediários.

Lançado originalmente em 1965, ‘Roda De Samba Vol.1’ é o primeiro de três discos lançados pelo Conjunto A Voz do Morro. Só clássico!

FOI NA ÉPOCA DO ZICARTOLA QUE ZÉ KETI CONHECEU O COMPOSITOR CARLOS LYRA e imediatamente fizeram um trato: o primeiro arrastaria o outro pra onde fosse nos morros, enquanto o segundo apresentava ao novo amigo a zona sul da Bossa Nova. Foi assim que Zé Keti acabou conhecendo a cantora Nara Leão, que nessa altura já renegava o título de musa do estilo e assumia ideais mais à esquerda.

O polêmico Show Opinião, ao lado de Nara Leão e João do Vale, estreou no dia 11 de dezembro de 1964. Dirigido por Augusto Boal, do Teatro de Arena de São Paulo, o espetáculo intercalava canções com falas, contando histórias que representavam a determinação à resistência, à denúncia e ao enfrentamento.

O show fez muito sucesso, principalmente entre estudantes, artistas, jornalistas, arquitetos, sociólogos, economistas e parte do clero, e foi fundamental na elaboração do pensamento crítico de esquerda contra a situação política do país, papel que antes pertencia à literatura.

Zé Keti conta a história e canta as músicas do Show Opinião, de 1964

DA EXTENSA OBRA DO 5º HOMENAGEADO DE LALA LAIÁ, cheia de clássicos como ‘Acender as velas’, ‘Diz que fui por aí’, ‘Nega Diná’, ‘Malvadeza Durão’, ‘Mascarada’, ‘Máscara Negra’, entre outras, a música ‘Opinião’ foi a escolhida para representar nossa homenagem.

Se não bastasse toda sua beleza e simplicidade, o momento histórico que ela simboliza muito me interessa, inspira e arrepia. É possível encontrar no sentimento de esperança e perplexidade de todos aqueles que fizeram o Show Opinião ariscando a própria pele, algo muito semelhante com o que tenho visto e vivido ultimamente.

Movimentos de resistência diante à repressão e à violência policial na periferia e nas manifestações políticas da sociedade; estudantes ocupando suas escolas em protesto a uma política pública imposta de cima pra baixo sem diálogo e participação; mulheres sendo donas do seu próprio corpo e destino mandando o recado de que machistas não passarão; espaços públicos sendo ocupados com criativdade como um ato de resistência contra um status quo que cria cidades segregadas; debates inéditos sendo travados principalmente nas tão criticadas redes sociais renegando padrões, privilégios e a representatividade de políticos que não nos representam de fato.

Isso tudo em tempos onde uma mancha conservadora parece se espalhar cada vez mais depressa, enquanto as expressões artísticas, de forma cada vez mais natural e intensa, denunciam com cada vez mais força as contradições e desperta o indivíduo para a complexidade dos rumos que estamos tomando e que queremos tomar enquanto sociedade.

Só nesse carnaval por exemplo, terreno que Zé Keti brilhava como ninguém, a grande maioria dos blocos de rua que fui em São Paulo traziam letras politizadas, que libertavam a mulher do papel imposto nas marchinhas do início do século, declaravam o respeito a toda forma de amor e rechaçavam as figuras mais contradizentes com os avanços que tivemos em relação a liberdade e os direitos humanos desde a estreia do Show Opinião.

Zé Keti, João do Vale e Maria Bethânia (que vaio a substituir Nara Leão posteriormente) durante o Show Opinião, no Teatro de Arena em Copacabana.

NAS PALAVRAS DO PRÓPRIO ZÉ KETI, o Show Opinião transformou-se em um movimento de oposição. “Foi uma abertura, uma inovação”. Representava a aliança entre as classes, o casamento do povo com o intelectual, o sonho da revolução nacional e popular.

Em nossa releitura da canção ‘Opinião’, obra prima de Zé Keti, o produtor artístico do projeto, Leandro Cabral, nos brinda com um arranjo em Vassi, ritmo africano que também diz respeito a luta e resistência. Influenciado pelo mestre Letieres Leite e sua Orkestra Rumpilezz, o episódio vai ao ar no dia 02/03 com a presença mais que especial de Sidmar Vieira (trompete), Jorginho Neto (trombone) e Cauê Silva (percussão). Não dá pra perder, hein?!

Enquanto isso, mais uma homenagem ao sambista. Dessa vez feita por outros bambas:

Curta de Nelson Pereira dos Santos com Colombo, Délcio Carvalho, Élton Medeiros, Guilherme de Brito, Jair do Cavaquinho, Monarco, Nelson Sargento, Noca da Portela, Walter Alfaiate, Wilson Moreira, Zé Cruz e muitos outros amigos saudosos de sua memória.