LaLa Laiá?! Como é que é?

CONFESSO QUE TER LETRAS DE MÚSICA na ponta da língua nunca foi o meu forte. Perdi a conta das vezes que os amigos que tocavam comigo tiraram uma com a minha cara por eu trocar uma palavra ou outra.

Não que a letra não seja importante pra mim. A paixão pela mensagem veio sim, embora um pouco mais tarde. O fato é que a melodia sempre me fisgou primeiro. Das memórias de infância por exemplo, lembro pouco das canções que meu avô cantarolava e muito do fraseado dos seus assobios. Por isso sempre gostei do canto dos bêbados: solto, espontâneo, franco.

MAIS MOLEQUE, POR ANDAR ENTRE músicos que começavam a se aventurar pelo universo do jazz, não gostava da distinção músico e cantor. Queria que a voz fosse mais um instrumento. E minhas notas o suficiente pra tocar as pessoas.

Não à toa me fascinei completamente a primeira vez que ouvi Elza Soares, Chet Baker, Germano Mathias ou Ella Fitzgerald. Não que fosse me tornar um improvisador. O que existia ali era uma atração quase cega pelo fraseado e a divisão rítmica. Que me permitiu gostar de uma música ou outra simplesmente por conta de sua melodia.

Hoje, com uma leitura crítica muito mais elaborada, considero a narrativa tão importante quanto. E tenho sim me preparado pra cantar o ‘tempo presente’, como diria Drummond em Mãos Dadas. Mas enquanto o momento não chega, resolvi dar cabo a essa paixão antiga. Quase como uma pausa para revisitar melodias que tantas vezes me emocionaram.

ENTÃO SELECIONEI COMPOSITORES que sou completamente apaixonado: Adoniran Barbosa, Ataulfo Alves, Luiz Gonzaga, Lupicínio Rodrigues, Nelson Cavaquinho e Zé Keti. E pra dar conta da responsa, convidei ao estúdio grandes músicos da cena instrumental: Cauê Silva, Cássio Ferreira, François Lima, Guilherme Held, Gian Correa, Henrique Araújo, Jessé Passos, Josué Santos, Jorginho Neto, Luis Cabrera, Rael Ferreira, Sidmar Vieira, Vitor Cabral, Walmir Gil e Yaniel Matos, sob os arranjos do pianista Leandro Cabral.

São encontros entre uma rapaziada que vem quebrando tudo por ai com esses grandes mestres do passado, em releituras que trazem novos ares sob essas canções. Assim, uma vez por mês vou publicar o resultado em vídeo por aqui. E no meio tempo, contarei um pouco sobre os processos, o repertório dos homenageados e o excepcional trabalho dos músicos selecionados para o projeto.

A TUDO ISSO CHAMEI DE LALA LAIÁ: expressão quase que obrigatória em uma letra de samba. Pra mim, uma tradução literal para o sentimento profundo que essas canções despertam.

Impossível não se arrepiar dos pés a cabeça quando no final de um samba a roda inteira explode em um Lala Laiá enorme. Mais difícil ainda é não deixar se levar. Lala Laiá é uma febre, uma catarse. Um momento mágico, onde a canção se entrega à melodia, pra que o povo cante até de manhã.