A Saudade de Nelson Cavaquinho

TALVEZ A SAUDADE NUNCA TENHA VISITADO tantas vezes um mesmo compositor. Nelson Cavaquinho (1911 - 1986) registrou muito dessas visitas tristes em suas canções, com letras que remetiam aos amores do passado, ao violão, a boêmia e, principalmente, à morte, como em "Rugas", "Juízo Final", "Luto", “Revertério” e "Eu e as Flores".

Lançada em 1947 por Cyro Monteiro, “Rugas” foi o primeiro sucesso de Nelson como compositor, que nessa época assinava como N. Silva.

NELSON É O GARRINCHA DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA. Autodidata, começou a tocar cavaquinho ainda criança com uma caixa de charutos improvisada com arames esticados. Mais tarde, quando adotou o violão, continuou a tocar usando apenas o polegar e o indicador da mão direita, estilo estranho, desajeitado e único que lhe rendeu o apelido (há controversas) e impressionou instrumentistas como Paulinho da Viola, Turíbio Santos e Egberto Gismonti.

Era o cantor das putas, dos bêbados e das figuras típicas da noite carioca. Mas também agradava intelectuais e afins. De fato, era generoso e mostrava seus sambas da mesa de um bar para quem quisesse ouví-lo. Compunha pela madrugada, com o violão no colo quase que totalmente na vertical e um copo de cerveja ou cachaça sempre em punho. Por isso mesmo, esquecia suas composições, que preferia guardar na memória ou, se muito, anotar em papel de cigarro.

Com sua voz inconfundível, rouca e áspera em ‘Luz negra’, dele próprio e Amâncio Cardoso, anunciado por Elizeth Cardoso no LP Depoimento do Poeta, álbum de estreia do compositor, de 1970.

VINDO DE UMA FAMÍLIA POBRE, o sambista teve uma infância típica de um menino solto pelas ruas do Rio de Janeiro do começo do século. Aos 7 anos contraiu a gripe espanhola que assolava grande parte da população carioca, fato que o marcou para toda vida. Um pouco mais tarde teve que largar a escola para trabalhar e ajudar a família.

Na adolescência, se aproximou da malandragem, dos chorões e dos grandes bailes dos clubes cariocas. Mas pra dar jeito na vida, casou-se aos 20 anos e conseguiu um trabalho na polícia fazendo rondas noturnas a cavalo. Foi assim, que passou a frequentar a Mangueira, onde amarrava o cavalo num cantinho e de ainda de farda entrava nas rodas de samba ao lado de figuras como Cartola e Carlos Cachaça.

A lendária gravação de Cartola para ‘Pranto de Poeta’ de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. Amigo de longa data, Cartola foi um dos responsáveis pela fama de Nelson, que veio só na década de 1960, quando começou a se apresentar em público no Zicartola, casa de samba comandada por Cartola, que se tornaria ponto de encontro da música popular.

SEMPRE ENROLADO EM DÍVIDAS, o compositor tinha a mania de "vender" parcerias de sambas que compunha pra levantar um troco. O que rendeu à música brasileira muitos compositores fantasmas e o fim de uma parceria promissora com o próprio Cartola, que preferiu virar amigo a parceiro.

Milton Amaral, parceiro legítimo, compositor e boêmio, costumava contar que, certa madrugada fizeram um samba juntos. Mas dias depois, quando foi à editora para assinar o contrato percebeu que era o 16º co-autor. Surpresa: Nelson já havia vendido a mesma música 14 vezes.

Nelson canta e toca ‘Minha Festa’, parceria com Guilherme de Brito, em seu terceiro álbum, lançado em 1973. Essa música faria muito sucesso no mesmo ano na voz da grande Clara Nunes.

DEDICOU-SE À MÚSICA E A BOÊMIA COMO NINGUÉM e viveu muitas tristezas. Mas nem por isso guardou mágoa da vida, pois fazia ‘música para tirar as coisas de dentro do coração’, como declarou.

A própria Beth Carvalho, amiga pessoal do compositor, disse uma vez: “Ele tinha uma tristeza na hora de compor. Mas era uma pessoa muito engraçada”. Nelson realmente teve uma vida de orgia, mas sem dúvida a melancolia é sua principal marca: “Sou um homem que está muito perto da fatalidade. Minhas músicas, por isso, falam sempre em morte e em Deus, não faltando os amores fracassados.”, disse.

Curta-metragem de Leon Hirszman de 1970 com Nelson dando uma voltas pela Mangueira com os amigos e batendo samba, como ele costumava dizer.

“QUANDO EU ME CHAMAR SAUDADE”, feita com seu grande parceiro Guilherme de Brito, é mais uma dessas pérolas. E talvez a que mais represente a vida do autor, cujo reconhecimento só veio em meados da década de 60, quando a cantora Nara Leão trouxe de volta aos holofotes da crítica e da industria da música o repertório de grandes sambistas com Zé Keti, Cartola e o próprio Nelson.

“Mas depois que o tempo passar / Sei que ninguém vai se lembrar / Que eu fui embora” são versos que mais uma vez trazem o pavor da morte e do esquecimento. Infelizmente, o sambista não recebeu tantas flores em vida, mas a partir da sua morte, como profecia, centenas de músicos brilhantes o homenagearam gravando suas canções.

Hoje, Nelson se chama saudade, e não tem roda de samba que não toque suas canções. Assim como aquela diversidade de pessoas que rodeavam a mesa onde tocava no Café São Jorge para ouví-lo, continuamos nos emocionando e mantendo viva sua memória e sua obra através da mais poderosa das preces: a música.

Lala Laiá presta mais uma dessas homenagens. Na quarta, 02/09, vai ao ar nosso 2º episódio com dois bambas da nova geração do choro e do samba: Henrique Araújo (cavaco) e Gian Correia (violão 7 cordas). Mais uma vez acompanhados de Leandro Cabral (teclado), Rael Ferreira (baixo), Vitor Cabral (bateria) e euzinho aqui, Gut Simon, nos vocais. Bóra bate um samba?!