Saudade, o meu remédio é cantar

NÃO ME LEMBRO QUANDO FOI A PRIMEIRA VEZ que ouvi Luiz Gonzaga. Aliás, alguém se lembra? Para mim, sua música foi algo que sempre existiu. Era ensinada na escola para contar a história de uma gente lá de longe, que sofria muito pela falta de chuva e a dificuldade de viver em uma terra que nada dava e por isso tinha que abandoná-la.

Na minha cabeça de criança, eram músicas lindas feitas por um cangaceiro fora da lei que adorava soltar balões. Provavelmente, empolgado, devo ter misturado um pouco, ou bastante, toda aquela história sobre o Rei do Baião, Lampião e seu bando e toda a cultura da festa de São João.  

Bom, a verdadeira história de Luiz Gonzaga, acabei conhecendo mais tarde e você provavelmente já ouviu bastante. Dos homenageados de Lala Laiá é, inclusive, o mais popular com algumas dezenas de biografias, filmes, especiais para TV e, principalmente, coletâneas e reedições de uma obra original de extrema importância pra música brasileira.

Mas então por que nosso querido Gonzagão foi escolhido para estar aqui em Lala Laiá no meio de tantos outros compositores ligados ao universo do samba? Bom, a primeira razão é simples, essa websérie homenageia grandes melodistas e não gêneros, tá lembrado? Mas o principal motivo recai obviamente no mito Luiz Gonzaga, um personagem único da música brasileira, autor de uma verdadeira revolução.

Composição de Guio de Morais interpretada por Luiz Gonzaga pela RCA Victor em 1950 sobre as dificuldades do nordestino de se adaptar a vida na capital, bem diferente dos costumes do sertão

LUIZ GONZAGA NASCEU EM EXU, no Sertão Pernambucano, em 1912. Cresceu rodeado de foles, entregues à seu pai, Januário, por tocadores dos arredores para que as consertasse nas horas que lhe sobravam das limpas e dos plantios de milho e feijão. Foi assim que fez suas primeiras incursões por aquele misterioso mundo de sons, inventando suas próprias melodias enquanto observava o pai mexer com sanfonas de todos os tipos.

Já crescido, e depois de longos anos viajando pelos quatro cantos do Brasil como oficial do exército, foi para o Rio de Janeiro. Naquele ‘mundo todo novo diferente do sertão’, como dizia o cantor, se desdobrou para fazer algum dinheiro tocando tangos, valsas e o que mais agradasse a gringaiada dos cabarés do Mangue, famoso reduto da boemia e da prostituição carioca da época.

Entrevista completa do Gonzagão no programa "Proposta" da TV Cultura. Com Júlio Lerner, Gonzaguinha, Dominguinhos e Quinteto Violado.

SEMPRE EM BUSCA DE MELHORES OPORTUNIDADES, era frequentador assíduo dos programas de calouros de Ari Barroso, onde levava sempre notas mediócres por números musicais onde imitava ao mesmo tempo Antenógenes Silva no acordeom e Augusto Calheiros na voz.

Mas foi quando voltou-se para a música autentica e vigorosa do sertão, até então desconhecida pela maior parte do público, que Gonzaga viu-se consagrado. Foi das melodias de sua infância e adolescência nos bailes de Exu e Caiçara, no pé da chapada do Araripe, que Gonzaga tirou sua inspiração e acabou criando toda uma tradição.

Registro emocionante e divertidíssimo de Dominguinhos e Luiz Gonzaga no final dos anos 70. Tocando muita sanfona e xaxando gostoso na pisada de Lampião.

GONZAGA, QUE TINHA UMA BOA VOZ E ERA SANFONEIRO DE MÃO CHEIA reuniu elementos seculares da cultura de sua terra e criou o Baião. Popularizou um gênero musical e também a maneira de tocá-lo. Ao contrário do que todos pensam, a formação tradicional do Baião - sanfona, zabumba e triangulo - é uma invenção sua do final dos anos 40, um formato que funcionava muito bem tanto musicalmente como para as carrocerias de caminhão que serviam de palco pelas excursões que faziam Brasilsão a fora.

E foi além, entrou realmente no imagético popular dando um tapinha no visual ao se basear na indumentária de sua região e, principalmente, de um grande ídolo da sua infância: Virgulino Ferreira, o Lampião. A partir daí, a sanfona de 120 baixos passou a estar sempre acompanhada por um lenço de pura seda no pescoço, alpargatas nos pés e um chapéu de couro com abas longas e arrebitadas, culminando no título de ‘O Rei do Baião’.

 

FORA TODA ESSA OBRA RIQUÍSSIMA E ESPECIAL, o que encanta no grande Luiz Gonzaga é como ele sistematizou e propagou, à partir de elementos arraigados nas tradições populares de sua região, muito mais que um gênero, uma tradição.

Uma das coisas que mais me atrai nesse processo que estou chamando de Lala Laiá - além da oportunidade de me aprofundar na obra dos homenageados e aproveitar o convívio de músicos tão talentosos - é  perceber como se cria uma linguagem a partir de elementos que em geral estão a nossa volta. No caso de Gonzaga, com o que era mais intimo a ele há mais de 70 anos atrás. A sonoridade que trazia consigo desde criança no coração.

Mas também é muito interessante observar experiências de diversos artistas em agregar outros elementos aos já legitimados pelo autor, como é o caso de Gilberto GilLenine, Bid e muitos outros.

Na websérie Lala Laiá é esse o espírito que dá caldo aos encontros. Com profundo respeito a tradição, nossa louvação é pela desconstrução. Por isso um arranjo ‘meio-dub’ para o clássico ‘Último Pau de Arara’, uma das grandes do Rei do Baião, que você confere na primeira quarta do mês de outubro, com participação dos incríveis Guilherme Held (guitarra) e Walmir Gil (trompete).

É isso ae! Quarta, 07/10, cola na grade pois vamos mostrar pra vocês como se dança o baião - mesmo que um pouquinho torto - e quem quiser aprender favor prestar atenção, não é não Luiz?!

Junto ao filho Gonzaguinha, que não poderia ficar de fora, em especial para TV de 1984.