Lala Laiá: tá no visu, hein?!

O FLAU É O ESTÚDIO DE CRIAÇÃO QUE DESENVOLVEU toda essa boniteza que vocês estão vendo por aí. Tá no vídeo, no site, no face. A comunicação visual de Lala Laiá é obra do designer Eduardo Ribeiro, que define seu estúdio como um lugar que faz ‘trabalhos legais de se criar e de se ver’.

Fiz algumas perguntinhas pro artista e amigo - outro grande encontro que a vida me proporcionou - para vocês conhecerem um pouco sobre o processo criativo da comunicação visual dessa websérie e também sobre seu trabalho e influências. Se liga:

FALE UM POUCO SOBRE O FLAU: POR QUE ELE NASCEU E QUE TIPO DE PROJETOS ELE BUSCA REALIZAR?

O Flau é um estúdio em ideologia, mas uma iniciativa antes de tudo. Uma iniciativa em dar forma a projetos que são legais de fazer e de se ver. O processo do trabalho funciona exatamente como um estúdio, mas a diferença está bastante no processo criativo. Não há uma estrutura fechada, uma metodologia única. Ele é muito mais um bate-papo, uma troca de experiências, um aglomerador de pessoas e expertises que evolui até chegar onde se espera. O foco do Flau é o projeto ser legal em todas as etapas da sua existência.

COMO VOCÊ ENXERGA A RELAÇÃO ENTRE DESIGN E MÚSICA?

Bem, existe o que está por aí e existem os olhares que criei ao longo da minha trajetória como designer. Tenho uma relação especial com a música. Ela sempre esteve presente em minha vida desde muito novo, coisa de família. Como designer, foi inevitável estreitar essa relação, já que também estiveram presentes todas as capas dos discos que conheci. Essa mistura é um momento quase sinestésico, um trânsito de ideias e percepções que se complementam ao mesmo tempo que são completamente particulares. E acredito que a beleza do design para a música seja essa coisa que ao mesmo tempo em que alguém propõe um olhar, também faz aquilo ter sentido coletivamente.

VOCÊ TEM MUITOS TRABALHOS NO SEU PORTFÓLIO RELACIONADOS A MÚSICA, PODE CITAR ALGUNS E COMENTAR UM POUCO SOBRE ELES?

Todos eles fazem parte de um processo contínuo, na verdade. Posso citar o início de tudo com a série de posters, que foi um momento de liberdade e experimentação. Acredito que esse momento me fez ter mais ciência do que disse na pergunta anterior. Foi alí, exercitando e produzindo muito, que esse senso aflorou. Tão importante quanto esse momento, posso citar o projeto do disco Três Vezes Grande da banda Marco Nalesso e A Fundação. Ele acabou até sendo o estopim do que é o Flau. Foi um processo de vivência com a banda e entendimento do projeto que, com o passar do tempo, foi se moldando até chegar onde chegou. Sempre com a participação coletiva e aglomerando gente que era bacana pro processo. É essencial essa vivência para entender quais são todos os sentimentos que a música sugere.

QUAIS SÃO AS CAPAS DE DISCOS MAIS FODAS DE TODOS OS TEMPOS E QUE TE INSPIRAM FREQUENTEMENTE?

Pô, isso é quase impossível de responder. É mais fácil ir pelas que mais gosto, tanto pela música quanto pelo design. Vou tentar citar três que não são unânimes entre todo mundo. Mas a lista é gigante e de viéses bem distintos. Mas vai: 'Mingus Mingus Mingus Mingus Mingus' do Charles Mingus, 'No Code' do Pearl Jam e 'Sky Blue Sky' do Wilco. Os motivos são bem peculiares. No final, de alguma forma, todas mexem comigo. Acho isso mais a coisa mais importante.

QUEM SÃO OS CARAS, OS DESIGNERS QUE ENTENDERAM A ESTÉTICA MUSICAL E CONSEGUEM TRAZER PRO UNIVERSO VISUAL?

Aqui é mais fácil. Storm Thorgerson é um gênio. Ponto. Se você é um ser humano com mais de 5 anos de idade, você já teve contato conscientemente com algum trabalho dele. A história da música e das capas está diretamente ligada a ele. Dá um Google nesse nome e vai ver que não to pegando leve. Mas a lista também é extensa. Existem trabalhos icônicos, artistas e designers de carreiras consolidadas no design para música e que foram criadores de uma linguagem, como o Milton Glaser e o Robert Flynn. Aqui no Brasil tem o Elifas Andreato, que trouxe pras suas capas aquilo que já estava consolidado em seu trabalho artístico. Mas são apenas alguns nomes. Existe também uma infinidade de capas e posters que admiro, mas nem sequer sei quem foi o designer.

FORA ESSES, QUEM SÃO AS SUAS MAIORES REFERÊNCIAS EM GERAL?

Todos os grandes, obviamente. Sejam eles contemporâneos ou macacos velhos. Tem muita coisa boa rolando, e o design brasileiro contemporâneo vem sendo uma inspiração gigantesca pra mim. Colletivo, Pianofuzz, Papaya Madness, Quadradão, Firmorama e tantos outros têm ido numa direção que me faz cada vez mais acreditar no que eu tenho feito.

VOCÊ JÁ DEVE TER OUVIDO MUITO ISSO, ATÉ MESMO DE MIM, QUE VOCÊ CONSEGUE IMPRIMIR UMA IDENTIDADE MUITO GRANDE AO SEU TRABALHO. OU SEJA, MESMO TRABALHANDO PRA DIFERENTES CLIENTES, COM DIFERENTES PROPÓSITOS E UNIVERSOS, NO FUNDO QUEM BATE O OLHO E CONHECE O SEU TRABALHO, SABE QUE É UMA CRIAÇÃO SUA. VOCÊ RECONHECE ISSO? E SE SIM, QUANDO FOI O MOMENTO EM QUE ESSA IDENTIDADE SE FORMOU E COMO VOCÊ A DEFINE?

Olha, já me disseram isso sim, mas eu não encaro isso como positivo ou negativo. Acho legal pessoas se identificarem com o trabalho do FLAU e irem até ele por isso. Mas acredito também que o design seja um organismo vivo e em evolução. Nós mudamos. Nossa cabeça muda e nosso trabalho muda junto. Talvez ter crenças tão definidas faça existir um fio condutor entre os trabalhos, mas isso não é uma intenção de imprimir uma identidade no conjunto. É mais parte do momento. Daqui cinco anos pode estar tudo diferente. Ou não, já diria Caetano.

FALANDO DE LALA LAIÁ, COMO FOI O PROCESSO CRIATIVO DESSE PROJETO GRÁFICO NO SEU PONTO DE VISTA?

A coisa também foi conjunta, né? A medida que você me contava o espírito do projeto eu já ia desenhando a marca na minha cabeça. Lala Laiá é quase uma onomatopeia, mas é uma onomatopeia brasileira e muito característica de um momento específico. A forma geométrica que envolve a marca a princípio era um pandeiro, mas foi evoluindo até virar essa coisa mais simples que possibilita uma expansão pra toda a identidade. Ela é uma mistura entre as duas formas centrais da bandeira brasileira, de certa forma, mas isso não foi racional. O que traz de volta a questão de que acredito que o mais importante é o trabalho mexer alguma coisa dentro da gente.

O QUE VOCÊ QUERIA TRANSMITIR COM ELA?

É o que falei alí em cima: ela sugere algo que é sensorial mas que faz todo o sentido. É samba mas também elegância. É neutra mas pode ser complexa. E, principalmente, é charmosa mas tem sua bossa. Assim como o projeto, não é?

O QUE TE AGRADA NESSA MARCA?

Quando eu termino uma marca, eu tenho uma obrigação comigo mesmo: amá-la. E o que eu mais gosto nela, assim como em tudo que faço, é do sentimento de olhar para ela e ela responder todas as inquietações que eu tinha antes de começar a fazê-la. O Lala Laiá é isso, e não teria como ser outra coisa.