O samba regional de Ataulfo Alves

SE EU PUDESSE, E O MEU DINHEIRO DESSE, daria um pulinho em 1920 só pra ouvir o que tocava na rádio de Miraí, interior de Minas Gerais. De alguma forma, tudo que o pequeno Ataulfo ouvia em seus tempos de criança acabou inspirando suas melodias, tão únicas e diversas - das memórias do pai violeiro, acordeonista e repentista, às canções de roça e toadas que circulavam pela Zona da Mata mineira naquele início de século 20.

Ataulfo Alves (1909 - 1969) fez de tudo antes de se tornar compositor, nada muito raro para um menino negro nascido em uma família de sete filhos. Foi leiteiro, condutor de bois, carregador de malas, engraxate, menino de recados e carregador de marmitas. Até se mudar para o o Rio de Janeiro aos 18 anos acompanhado de um farmacêutico para o qual trabalhava limpando frascos de remédio.

Aos 20 começou a compor e não parou mais. Pra nossa sorte! Cerca de 320 canções pautaram um dos mais numerosos repertórios da música popular brasileira. Dezenas foram sucessos extremos, cantadas até hoje em qualquer roda de samba. 

Ataulfo Alves interpretando seus grandes sucessos no Show do Simonal da TV Record em 1967 com acompanhamento do "Regional do Caçulinha".

FOI GRAVADO POR MUITOS. OU MELHOR, POR TODOS. Descoberto por Almirante em 1933 e, pouco tempo depois, por Carmen Miranda - que garantiu sua entrada no mundo artístico - suas canções passou pelas vozes de Silvio Caldas, Carlos Galhardo, Orlando Silva, Dalva de Oliveira, Cyro Monteiro, Aurora Miranda, Clara Nunes, Gilberto Gil, Jorge Ben, Emílio Santiago,  Elizeth Cardoso, Bezerra da Silva, Martinho da Vila, Elza Soares, Roberto Silva, Roberto Carlos e, seu filho, Ataulfo Alves Junior.

A Pequena Notável, que já o conhecia da época em que ele ainda trabalhava na farmácia, gravou Tempo Perdido, responsável pela entrada do compositor no rádio.

SEUS SAMBAS CHEIOS DE IRONIA REFLETIAM A ÉPOCA EM QUE O COMPOSITOR VIVEU. Da fossa proporcionada por relações amorosas à exaltação do samba como expressão maior da cultura brasileira. Com aquele jeitinho mineiro arrastado e a malandragem carioca adquirida, seus sambas não só falavam mas grudavam na língua do povo. Não à toa, muitos deles estão cheios de expressões populares: ”Nessa vida tudo passa”, “Morre o homem, fica a fama”, “Perdão foi feito pra gente pedir”, “Eu era feliz e não sabia”...

Com Mario Lago, em 1942, fez um de seus maiores sucessos. Ai, que saudades da Amélia é mais um samba que penetrou direto na alma popular. A força da canção foi tanta que a palavra Amélia foi parar no Dicionário Aurélio como: “mulher que aceita toda sorte de privações ou vexames sem reclamar, por amor a seu homem”. A façanha revela também o machismo existente na sociedade da época. “Durante as primeiras décadas de existência do samba carioca, as letras apontavam sistematicamente a mulher como a culpada pelas separações havidas entre homens e mulheres. E Ataulfo não foi uma exceção”, conta o autor Sérgio Cabral em sua biografia sobre o compositor. 

O grande clássico de Ataulfo na versão instrumental do pianista e arranjador Eumir Deodato, um dos músicos brasileiros mais reconhecidos fora do país, ao lado do grupo 'Os Catedráticos do Samba' no LP 'Ataque' de 1965.

EM 1966, JÁ CONSIDERADO PELO PRÓPRIO ARY BARROSO COMO O MAIOR COMPOSITOR BRASILEIRO, compôs Laranja Madura, gravada no LP Eternamente Samba. A música nasce como um desabafo ao amigo Zé Justino – amizade que vem dos tempos escravocratas, uma vez que o avô de Ataulfo era propriedade do avô de Justino (que maluquice isso!) e foi de sua família que o compositor herdou o sobrenome. 

Mas a música não é sobre desavenças. O Ataulfo depois da fama teve uma vida de confortos. Quem disse que o trabalho não dá camisa a ninguém?! Ataulfo era um homem político e muito bem relacionado. Ocupou cargos importantes nas grandes instituições de arrecadação de direitos autoriais da época. Compôs em homenagem ao Estado Novo de Getúlio e para a campanha de Ademar de Barros à presidência. Posicionou sua música no mercado com práticas um pouco questionáveis que depois dariam origem ao jabá. E chegou a ser eleito, em 1961, um dos homens mais elegantes do ano. 

Ou seja, raríssimas vezes o compositor voltou-se para as questões raciais ou sociais do seu passado. “Laranja madura, na beira da estrada, tá bichada Zé, ou tem marimbondo no pé” talvez seja a mais mineira de suas canções. A simplicidade da melodia, a prosa mansa e o sarcasmo da letra me encantaram desde a primeira audição. E me fizeram sempre imaginar o próprio Ataulfo ali, na beira da estrada, sonhando com a Maria Rosa, mas tendo que se contentar com os mimos de Rosa Maria. 

O cantor Miltinho interpreta a música Laranja Madura acompanhado do saxofonista Bijú. O Rei do Rítmo gravou ainda o samba Mulata Assanhada, também de Ataulfo, com o qual fez grande sucesso.

LARANJA MADURA É BELA, INGÊNUA E DIVERTIDA. E foi escolhida, dentre tantas do compositor, para entrar no repertório de Lala Laiá pelo desafio de se criar um arranjo que desconstruísse o cenário rural que ela propõe, mas preservasse a confusão, os marimbondos e toda a desconfiança inerente à música. 

Laranja Madura é, pra mim, a mais pura representação do samba regional do autor. O que me fez querer revisitar sua obra sem a necessidade de reproduzí-la. Como seu parceiro Mário Lago declarou uma vez: "O samba de Ataulfo tem um negócio qualquer. Parece mineiro andando no meio da estrada, meio fingindo que não quer ir, e indo. Tem um balancinho gozado e diferente". Será que groova?! Veremos! 

Dia 05/08, estreia o 1º episódio de Lala Laiá, com os convidados Cássio Ferreira (sax alto) e Josué dos Santos (sax tenor) em homenagem ao grande Ataulfo Alves. Não desconfia não mineirinho, assiste ae! ;P

Enquanto isso, mais Ataulfo…

A lendária gravação dos Novos Baianos no LP Vamos pro Mundo de 1974 para o clássico “Na cadencia do Samba”.

Em 1995 o visionário Itamar Assumpção gravou o CD "Ataulfo Alves por Itamar Assumpção - pra sempre agora" inteiro de enlouquecer. :P
 

A voz suave de Emílio Santiago em ‘Errei Erramos’, samba lançado em 1938 por Orlando Silva, no LP  ‘Ataulfo Alves - Leva Meu Samba’ de 1989, que reuniu diversos artistas e marcou os 20 anos de morte e os 80 de nascimento do compositor.