Adoniran, a voz da cidade

FOI EM MEIO A PROLIFERAÇÃO DE ARRANHA-CÉUS, CHAMINÉS E AVENIDAS, ícones do desenvolvimento vivido pela cidade de São Paulo a partir da década de 1930, que Adoniran Barbosa, o quarto homenageado da websérie Lala Laiá, deu sentido à sua obra.

Fugindo dos padrões do samba-exaltação que embalava o ufanismo da alma brasileira ao gosto do Estado Novo, o ‘progréssio’ do autor de Trem das Onze dava um baile no discurso oficial ao narrar as profundas contradições sociais e econômicas resultantes da configuração de um novo espaço urbano, proporcionado por um processo de industrialização que se intensificava no país e do qual a cidade de São Paulo era seu maior ícone.

“Adoniran, como narrador da metrópole, traduz a modernidade a partir de uma percepção que se alimenta de um sentido do cotidiano, negado pela racionalidade que move a transmutação do espaço da cidade - valor de uso - em metrópole - valor de troca.”, afirma Francisco Rocha em Adoniran Barbosa: O Poeta da Cidade (Ateliê Editorial, 2002).

Basta lembrar que em 1920, São Paulo tinha 579.033 habitantes e, 30 anos depois, já
registrava 2.198.096. Um assustador aumento demográfico protagonizado por italianos, portugueses, sírio libaneses, japoneses e migrantes de todo o Brasil em busca de um lugar ao sol.

Todavia, para o trabalhador atraído pelo progresso não sobrava muito além do despejo e da expulsão do centro da cidade - bem servido de equipamentos públicos - para loteamentos periféricos sem água, luz e com doenças e ruas intransitáveis. A poética da obra de Adoniran está bem aí, afinada com as vozes daqueles que, nesse contexto, habitavam o espaço de exclusão.

A cidade como espaço de tensões. Em Despejo na Favela, samba de 1969, Adoniran e o grande Gonzaguinha falam da dor das remoções e do ronco de um trator que destruirá em minutos o que essa gente conseguiu com tanto sacrifício. 

SENDO O SÉTIMO FILHO DE UM CASAL DE IMIGRANTES ITALIANOS, João Rubinato - verdadeiro nome de Adoniran, com o qual chegou a assinar as primeiras obras - nasceu em Valinhos, interior do estado de São Paulo, em 1910. 

Até ingressar no meio radiofônico, foi um sujeito de muitas profissões. Ajudou o pai como carregador de vagões, entregou marmita, trabalhou como varredor em uma fábrica de tecidos, foi ‘garção’ - como ele mesmo costumava pronunciar - vendeu meias como ambulante e chegou a ser metalúrgico, até que o talento, e a insistência, falaram mais alto.

No início dos anos 30, foi para São Paulo e, em 1935, iniciou sua atuação como radioator. Poucos sabem, mas antes mesmo de seus sambas ficarem famosos, Adoniran celebrizou inúmeras personagens em programas humorísticos, tais como Barbosinha, Zé Conversa, Mal-Educado da Silva, e o mais popular de todos, Charutinho, no ápice de sua passagem pelo rádio em Histórias da Maloca, sua grande parceria com o escritor e produtor Osvaldo Moles, na Rádio Record, muitos anos antes  do estouro do clássico Saudosa Maloca, com a interpretação dos Demônios da Garoa, em 1955.

Sempre gostou de samba: Sinhô, Noel Rosa e, principalmente, Luiz Barbosa, o grande destaque do samba de breque e conhecido também por introduzir o chapéu de palha como acompanhamento rítmico em gravações e programas do rádio (ouça aqui essa maravilha por favor!). Foi nesse último também, como devem estar imaginando, que nosso homenageado se inspirou na hora de escolher seu pseudônimo.

O sofrimento e a resistência do homem abandonado pela mulher em assumir o abandono, junta-se ao desespero do desaparecimento na cidade grande, tema constante em sua obra. 

EM ADONIRAN, ATOR E SAMBISTA FUNDEM-SE EM UMA SÓ VOZ até ir de encontro com muitas outras. São as vozes da cidade. Os personagens que ia encontrando na multidão e nas ruas da metrópole, recriando a sua verdade na arquitetura desse espaço em transformação.

“Meus sambas não nascem com horas marcadas, não são consequências de inspirações. Eles nascem por si, por mim, pelas coisas. Contam de uma São Paulo grande, falam das gentes simples, humanas, das malocas, dos malandros, da gente boa. (...) Eles não falam de grandes paixões, mas mostram os problemas e o cotidiano das pessoas da cidade grande, das muitas lutas e poucas vitórias.”, diz Adoniran.

Mesmo assim, o sambista não foi um mero transcritor da fala cotidiana das pessoas simples e humildes. “Pra falar errado é preciso saber falar errado”, costumava lembrar. Seu gesto poético nasce da interação com os espaços por onde circulava e da gente com quem convivia. É a partir dessa vivência, que vai muito além da simples observação, que sua inteligência e inventividade criava narrativas ao mesmo tempo críticas e despretensiosas, simples e belas.

“Minha maloca, a mais linda deste mundo, ofereço aos vagabundos que não tem onde dormir”, canta Adoniran na faixa que abre o primeiro álbum gravado pelo sambista, de 1974.

FORA OS PROBLEMAS HABITACIONAIS, de infra-estrutura urbana (como visto em Despejo na Favela, Abrigo de Vagabundos e Aguenta mão, João) e da exclusão e da perda das referências de memória individual e coletiva (como narrado em Saudosa Maloca e Viaduto Santa Efigênia), a população tinha que enfrentar ainda a dificuldade de se adaptar aos novos códigos que a cidade moderna impunha.

O samba, Iracema, foi composto em 1956 e retrata uma história triste porém rotineira em tempos onde as pessoas haviam começado a disputar o espaço das ruas com os automóveis. Neste caso, o atropelamento de uma jovem moça em uma das avenidas ícones da cidade, a Avenida São João, às véspera de seu casamento.

Para o historiador Francisco Rocha, o samba, que também foi escolhido para estrelar o 4º episódio de Lala Laiá, pode ser visto como uma metáfora das experiências de perda na cidade grande: “Iracema imprime um sentimento de desalento frente ao irremediável da dor da separação. Se por um lado, a tonalidade menor, o desenho melódico e a cadência lenta do samba comportam esse sentido, por outro, o trecho narrado reflete certa resignação. Diante a relação efetiva das forças, isto é, a metrópole que se impõe com seu trânsito e os transeuntes que em um lapso são tragados pra esse fluxo. A fala do narrador pedindo “Paciência, Iracema, paciência” sugere o tempo de espera, que não necessariamente representa a imobilidade de um cotidiano que oprime, mas refere-se a memória popular daqueles que não tem o lugar, mas tem o tempo - paciência”.

Bar da Carmela, Bixiga, 1978. Encontro de Adoniran Barbosa e Elis Regina em uma belíssima interpretação de "Iracema". Vale ainda continuar assistindo o vídeo até o final pra ouvir "Um samba no Bexiga", "Saudosa Maloca" e um rolezinho dos dois pelo bairro, que termina com o Adoniran, de forma hilária, se recusando a entrar em uma discotheque.

PARA ESSA RELEITURA DE IRACEMA, Lala Laiá selecionou dois grandes músicos cubanos radicados em São Paulo, para um arranjo meio salsa meio chá-chá-chá, de uma canção que fala de dôr e perda. Yaniel Matos (piano) e Luis Cabrera (saxofone) são os convidados especiais nessa grande homenagem a esse autor imortal cuja trajetória é também, de uma forma ou de outra, a própria história do samba paulista.

Mas, aguenta mão, João, o episódio vai ao ar só na primeira quarta-feira de fevereiro, dia 03. Tá lembrado? Mas enquanto isso, deixa eu te contar uma historinha curiosa: depois de ter passado algumas semanas imerso na obra de Adoniran, e de um final de semana inteiro de muito foco, me dou por satisfeito. O texto que você acaba de ler estava finalmente pronto (sem essa parte que escrevo agora). 

Era domingo a noite, e exaurido vou para casa de uma amiga para mudar de ares, caminhando distraído sem me preocupar com a já tradicional garoa paulistana. No caminho, ao cruzar um posto de gasolina escuto muito próximo de mim alguém cantarolar uma melodia estranhamente familiar. Olho pra trás atordoado e percebo que o frentista do posto está cantando Trem das Onze. Ele percebe que me viro para vê-lo. Para a cantoria por um instante. Sorri pra mim. E volta a cantar enquanto tira toda a espuma do para-brisa de um carro. Eu sorrio pra ele, respiro fundo e continuo minha caminhada me sentido abençoado. Emocionado, falo baixinho como se esse senhor por quem já me tornei íntimo pudesse me ouvir: “Tá vendo só Adoniran, fique sabendo que as pessoas que fazem essa cidade continuam cantando suas canções”. E que assim seja, bota a lenha pra queimar...

“E eu que já fui uma brasa / Se assoprarem posso acender de novo”
— Adoniran Barbosa

Em 1966, Adoniran estava longe da mídia. A moda era a Jovem Guarda de Erasmo e Roberto Carlos, na TV Record, o que deixava o sambista #chatiado. Neste ano, compôs “Já Fui uma Brasa”, um de seus maiores sucessos.